Eliana Alves Cruz
Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.
Fonte: ICL Noticias
Uma quadrinha antiga diz assim “Morreu, morreu. Antes ele do que eu”. No caso dos ricos brasileiros (e não só) o versinho poderia ser: “Morreu, morreu. Porque foi ele, não vou eu”. Os endinheirados têm um pacto estabelecido com a morte de toda e qualquer pessoa que não lhes seja semelhante e que não frequente seus círculos restritos de “eventos fechados”.
Nos últimos dias dois casos gritaram aos ouvidos principalmente de quem enxerga esse pacto. Um tomou as redes — Luciano Huck versus o Bolsa Família. Outro nem tanto — moradores do bairro paulistano da Lapa e as casas de idosos. Sobre o apresentador do programa dominical, todo o esculacho foi pouco para alguém que, apenas por ser bilionário, acha que pode em um , nas palavras dele “evento fechado” para outros bilionários, abrir boca e analisar o que não acompanha, o que não entende e o que não estuda.
Quase tudo já foi dito. Faltou falar do pacto com a morte.
Os 600 reais que para ele são trocados de gorjeta, colocam a comida na mesa de boa parte do país. Sem comida não se vive. Sem o básico, não se sobrevive. É morte.
Falecimento real, literal e simbólico, pois esse trocado que não paga nada do que Luciano vê como de alta qualidade, mantém milhões de crianças na escola. Educação ainda é uma porta importante de saída da condição dura e extrema. Sem ela, a chance de “morrer” na limitação e na frustração de não ter realizado nenhum sonho aumenta significativamente.
O desejo de morte todo argumento rejeita
O argumento de que milhões de pessoas devolveram o benefício assim que conseguiram empregos com mais remuneração, de que os filhos criados com o programa de transferência de renda já estão em outros patamares na escala social, de que… nada disso interessa para esses sócios da morte. Por quê? Porque para eles nada disso é solução, mas todo o problema.
Quem lavará? Quem passará? Quem capinará? Quem ouvirá seus gritos assediadores?
O Bolsa Família é um programa de vida, inclusive para quem está nos capítulos finais dela, pois é garantia do básico para milhões de famílias que possuem idosos dependentes em seu interior. Idosos com mais de 65 anos e em vulnerabilidade também têm direito.
O pacto com a morte é grande, sofisticado e exigente. Ele ordena que ela atue o quanto antes. Vamos ao caso da classe média amedrontada.
“Olha lá, mais um carro funerário”.
Tá proibido. Se vai morrer, que seja longe de mim.
Essa é a mensagem explícita enviada por parte de moradores do bairro paulistano da Lapa, face a transformação de algumas casas em residência para idosos. Pessoas que não são nem de longe tão ricas quanto o inimigo do programa Bolsa Família e seus amigos do evento fechado, declararam guerra aos vizinhos: Cerca de 40 casas para velhinhos.
O argumento: O zoneamento do bairro veta atividades comerciais e — aqui a verdade saída do depoimento de uma das moradoras a uma reportagem veiculada pelas redes da Folha de São Paulo — o risco de desvalorização dos imóveis da região por conta da movimentação e da presença frequente de carros funerários.
As casas, em resposta, dizem que não são comércio puro e simples, são residências prolongadas e que foram autorizadas pela própria prefeitura. Esta, acossada pelos classe média inimigos da velhice, já se apressou em cassar o alvará de seis delas.
Aparentemente, inimigos da morte. Na verdade, inimigos da vida.
O momento em que o carro funerário na porta de uma casa pela morte natural de um indivíduo, desvaloriza o valor da residência do vizinho ao lado, ironicamente, é o mesmo instante em que o pacto dos poderosos com aniquilamento ganha mais uma camada nefasta.
Idosos, por mais abastados que sejam (e não é o caso), são pessoas em fragilidade. O Brasil e sua cultura de idolatria à juventude a qualquer preço, imprudentemente não dá atenção às estatísticas e aos sinais evidentes de que muito em breve esta população será maioria.
Os dados do IBGE mostram que o número de pessoas com 60 anos ou mais quase dobrou em 20 anos e hoje representa mais de 15% da população brasileira. O número de idosos já supera a faixa de jovens de 15 a 24 anos. Já somos 80 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos.
Caixa de som em altíssimo volume e toda espécie de hostilidades para que as residências da Lapa se mudem para o mais longe possível das cercanias, são práticas que deflagaram a guerra entre mortais que acreditam que jamais estarão em lugar semelhante em sua velhice, contra os que por razões diversas precisam de cuidados em casas como aquelas.
Os moradores-soldados na cruzada contra a velhice nua e crua não são milionários, mas estão totalmente armados com as armas argumentativas daqueles que são. O mercado, o valor, a especulação, a concordância com quem não se importa em ver seres humanos no cruel e adoecedor esquema de escala 6×1… Estão pactuados com a ideia de extermínio do que desprezam apenas por existir. Pelo visto, não é óbvia a finitude da vida.
Um dos moradores, filmando um carro funerário, afirma em tom de denúncia: “Mais um defunto aqui”.
Ele parece não se ver como aquele que será um dia mais um defunto. Parece mórbido, porém o luto maior é por uma sociedade que faz um constante pacto com a morte…, mas a dos menos favorecidos.
Fonte: ICL Notícias


